sábado, 16 de setembro de 2017

Para lá do politicamente correcto

    As "ditaduras" impostas são sempre complicadas de dirigir, ainda mais difícil é aceitar que a liberdade é absorvida por uma censura social. Esse formato de ditadura é criada para evitar a opinião de terceiros. Essa situação tem um sabor azedo e agressivo, roça no ataque pessoal e ameaças físicas em espécie de bullying.
  O caminho para a ofensa passa pela facilidade que alguns assuntos ficam na ausência de argumentos. Quando é assim, é mais fácil recorrer à acusação do preconceito em vez de entender os motivos que levam a opiniões mais extremas.
    O exemplo recente baseou-se em dois blocos e um labirinto. Um exercício usado com o objetivo de ser partilhado nas redes sociais. Dois cadernos de atividades são apontados como diferenciadores de género criando a ideia de que patrocinam os estereótipos, as meninas eram menos capazes que os rapazes. O labirinto, único exercício retirado, foi descrito como um "exemplo esclarecedor do estereótipo de género", a ideia era generalizar os livros.
  A polémica foi gerada de tal modo nas redes sociais que levou à intervenção do governo e da CIG, culminando num pedido para retirar os livros do mercado. A base para o parecer da CIG para condenar os livros por diferenciação de género foi, apenas, o labirinto. A CIG deixou claro que respondeu ao "clamor das redes sociais.
  Eu (que tenho de ambos os cadernos) não encontrei a mesma apreciação proclamada nas redes sociais e na comunicação social. Os exercícios são bastante equilibrados, a maioria são os mesmos exercícios, apenas mudando desenhos e descrições
. são exercícios oscilam entre dificuldades a mais para uns e outros. Ao contrário do que era dito para vingar o argumento da diferenciação de género, em alternativa ao labirinto, são poucos exemplo que colocam as “meninas em tarefas domésticas e os meninos em tarefas ao ar livre”. Os exercícios têm diversas atividades para ambos os lados, não era exatamente aquilo que a histeria pretendia no momento.
   Ricardo Araújo Pereira foi ao encontro da ausência da diferenciação de género após ter consultado ambos os cadernos, mas não tardou a resposta, rapidamente uma turba lançou nas redes sociais uma espécie de movimento para estancar RAP, relegando a opinião do mesmo à sua atividade profissional, motivo mais que suficiente para o descredibilizar. Fernanda Câncio afirmou que não era credível por não se pode "basear na opinião de um humorista". Houve mesmo quem tenha o demonstrado que "comediante não é pago para dar a opinião, é para fazer rir com piadas de índole machista como a do que tu queres sei eu". Rita Ferro Rodrigues (promotora da expulsão nas redes sociais) tentou, por entre portas e travessas, que as afirmações de RAP no programa Governo Sombra fossem ao encontro das suas, esquecendo-se dos pormenores que RAP enunciou. E como não podia deixar de ser, as ofensas em torno da sua vida pessoal e profissional começaram-se a  tecer. Não foi difícil se perceber que ao esvaziar a argumentação da histeria, RAP abriu a porta ao discurso fácil da ofensa e ameaça. 
   Ao contrário do que se apregoa, isto não é a ditadura do politicamente correto, porque o politicamente correto não existe, o que existe é o senso. Isto é algo que ultrapassa os limites do normal, é uma tentativa de imposição de um pensamento, uma forma de coação à liberdade de expressão e criar regras à opinião de terceiros. Uma certa voz de esquerda entende que é politicamente inteligente e que tem o dever moral de criar formas de reger a sociedade dentro de regras que a mesma entende como as mais apropriadas. Ao contrário, a direita apela de forma taticamente política a um realismo exausto, abraçando o populismo e a demagogia com um cheiro de preconceito (classicista) utilizando figuras como André Ventura como tubo de ensaio de uma política made in Trump.
    O risco das imposições da opinião através de uma ditadura pode trazer para o palco político "Andrés Venturas" e com o risco de se tornarem representantes de um descontentamento. A ditadura de opinião empurra para uma visão do que é a atual direita, para além do sentimentos de preconceitos, também tem caminhos demasiado perigosos politicamente.
   O problema é a critica fácil e a generalização rápida, é mais fácil ofender ou procurar a perseguição às opiniões, em vez de ponderar um de debate e procurar encontrar argumentos de ambos os lados para criar uma resolução abrangente, que evite discursos e perseguições contrariando resumir a situação ao ataque boçal e à repressão de opiniões contrárias.
   Existem diversos sentimentos de preconceito e alguns estereótipos que devemos abandonar acompanhando os tempos e a evolução humana. Mas certamente não é através da histeria gratuita que se combate, nem utilizando o “politicamente correto” como desculpa para o radicalismo de ambos os lados. A que procurar respeitar as opiniões de quem as dá com algum senso e reprimir aquelas que se baseiam em chavões racistas, porque quem opina, como todos nós, tem o direito de partilhar da liberdade. De certo que ainda existe algum combate pela frente para dizimar aquilo que são os sentimentos negativos na sociedade, mas não é aplicando uma ditadura de ofensa e de ataque que resolvemos o assunto









Jorge Miguel Pires

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Os três inimigos do CETA

São inimigos do CETA todos os que amam o Planeta e o meio Ambiente. O CETA é um acordo que favorece a indústria extractiva e dificulta as lutas das populações em defesa do património natural, garantindo indemnizações milionárias caso as autoridades impeçam a extracção – mesmo antes de ela ter início. O CETA é um acordo que promove um aumento do transporte de mercadorias de baixo valor acrescentado, caminhando no sentido oposto ao da descarbonização da economia que se impõe como urgência civilizacional. O CETA é um acordo que vem por isso agravar os riscos de aquecimento global, entre várias outras ameaças ambientais que agrava. É também por esta razão que a Geota, a Liga para a Protecção da Natureza, a Quercus e a Zero, entre muitas outras associações de defesa do meio ambiente, se pronunciaram contra o CETA.

São inimigos do CETA todos os que amam a Igualdade. O CETA é um acordo que vai aumentar a pressão para deslocalizar a produção para onde as protecções laborais forem menores. É um acordo que acentuará as desigualdades salariais e mais ainda as desigualdades de riqueza e património. O CETA também favorecerá as grandes multinacionais face às pequenas e médias empresas, em parte pelo acesso privilegiado que têm às comissões regulatórias, acesso esse que tem preocupado as associações de defesa do consumidor, e muitos outros organismos. É também por estas razões que a CGTP-In, a DECO, a CNA e a Ordem dos Médicos, entre muitos outros sindicados e associações da sociedade civil, se pronunciaram contra o CETA.

São inimigos do CETA todos os que amam a Democracia. O CETA promove uma mudança sistémica na ordem jurídica para permitir aos investidores externos contornar os Tribunais portugueses, apelando a um tribunal arbitral enviesado a favor dos queixosos, ao qual nenhum investidor doméstico pode apelar sem ter esgotado todos os recursos, e que está vedado ao Estado ou aos cidadãos e associações da sociedade civil que se sintam lesadas pelo investimento externo, criando assim injustiças inaceitáveis. Por esta via, o CETA manieta a possibilidade de legislar em matérias como a protecção social e a regulação laboral, sanitária e ambiental. Por fim, o CETA inclui uma série de compromissos associados à partilha de dados entre o Canadá e a União Europeia e ameaça por essa via a privacidade dos cidadãos europeus, diminuindo-lhes as protecções de que até agora gozavam. É também por esta razões que a Associação Sindical dos Juízes Portugueses, o Sindicato dos Magistrado, a Academia Cidadã e a Comissão Nacional de Protecção de Dados, entre muitas outras associações que também defendem direitos liberdades e garantias fundamentais, se pronunciaram contra o CETA.

Importa perguntar como é que um acordo que coloca ameaças tão sérias está quase ausente do debate público. De facto, foi aprovado, no Parlamento, o Projeto de Resolução n.º 606/XIII/2ª, que recomenda ao governo a promoção de um «debate alargado com a sociedade civil, nomeadamente com as organizações não-governamentais, sobre o Acordo Económico e Comercial Global (CETA), antes da votação deste no Parlamento Português de forma a proporcionar um maior esclarecimento dos cidadãos relativamente aos impactos económicos, sociais e ambientais da aplicação do tratado transnacional». De forma contrária ao que foi deliberado na Assembleia da República, não se verificou um amplo debate sobre o CETA e o esclarecimento dos cidadãos e este respeito é quase nulo.

Mas isso não nos pode deter. Porque faço parte destes três grupos, rejeito o CETA. Qualquer Acordo de Comércio tem de ter preocupações de justiça, sustentabilidade ambiental e equidade social, não como palavras vazias no meio de um conteúdo que as nega, mas como uma prioridade que seja reconhecida como fundamental.


Dia 20 o CETA vai ser votado na Assembleia da República, e dia 18 será o debate correspondente. É a última oportunidade para fazer os deputados ouvir os cidadãos que se opõem ao CETA.
É por isso que está agendado um protesto denominado «Contagem Final contra o CETA» para dia 18 de Setembro.
Convido o leitor a confirmar a sua presença, para dar força a este protesto, e fazer com que a comunicação social finalmente dê algum espaço a um assunto tão importante e fundamental.

Post também publicado no Esquerda Republicana

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Quem são os Jihadistas Britânicos?


A BBC tem uma base de dados com certa de 270 Jihadistas. Muitos Já morreram outros muitos não lhes é conhecido a cara e ainda outros estão neste momento presos.

Estes são os rostos daqueles causaram o medo.




A Base de dados pode ser consultada aqui http://www.bbc.co.uk/news/uk-32026985







Patrícia de Almeida 
Licenciada em Ciencia Politica e Relações Internacionais

quarta-feira, 26 de julho de 2017

De uma vez por todas se respeitem as vitimas

 Instrumentalização, aproveitamento, política e jornalismo de sarjeta. A direita conseguiu descer o debate a níveis impensáveis em Democracia. A comunicação social, especialmente o SIC/Expresso, conseguiu ir tão longe quanto o Correio da Manhã no campo do sensacionalismo e tendenciosidade política das redações. O que aconteceu com o caso da lista das vitimas de Pedrogão ultrapassou tudo aquilo que era possível presumir que chegaria a política e o jornalismo. E não estamos a falar do simples click-bit
  Nunca o Expresso se comprometeu tanto com uma tendência política como nos últimos tempos. Nunca o Expresso extrapolou tanto aquilo que define a deontologia e a ética jornalística. Nunca o Expresso se resumiu a "pasquim"  como neste caso. O aproveitamento jornalístico que assumiu verdadeiros contornos partidários. Atingimos o grau zero do Jornalismo em Portugal. 
  Bernardo Ferrão e Pedro Santos Guerreiro apostaram no discurso de vitimização da classe. As afirmações de Bernardo Ferrão onde acusa os "anônimos com cartão de militante" de atacar o jornalismo ficaram-lhe tão mal quanto o texto que foi assinado pelo mesmo. Escusado perguntar quantos jornalistas escrevem e noticiam com cartão de militante ou distintos apoiantes de certos partidos. Ainda me lembro de Filipe Costa que via em em dezenas, milhares. E a devolução da sobretaxa? Alguém se lembra? Dos quatrocentos mil, que arredondado eram quinhentos mil, mas que afinal nem aos dois mil chegavam? 
  Não foram anônimos, com ou sem cartão de militante, que levantaram tamanha patranha vergonhosa utilizando vítimas de uma tragédia para fazer "chicana" política. Não foram anônimos que procuraram "chafurdar" em teoria da conspiração criadas sem base sólida, nem investigação. Foram tão só os jornais e uma direita, que cambaleia com pouca noção do seu próprio ridículo, que se agarraram na ínfima possibilidade de encontrar mais vitimas.
  Uma empresária, uma investigação independente, nomes que se repetem, boatos,  noventa mortos que a três casas ao lado já só lá vão nos oitenta e no fim de uma rua pouco comprida o número eram apenas setenta. Eram factos tão frágeis que a sua sustentabilidade a que o Expresso e o I deram nome e forma, desapareceu no primeiro sopro do Ministério Publico. Afinal era só, e apenas, uma teoria rocambolesca. 
 Bernardo Ferrão veio defender uma classe que dia para dia vai sendo a imagem de meras tentativas de influência do jornalismo nas decisões políticas. O uso e abuso da palavra, a tentativa de controlar a informação que passa, e da forma como passa. E depois a culpa é de quem escrutina? De quem põe em causa o tremendo mau estar da imprensa com o atual Governo e a maioria parlamentar? Bem me parecia que algo nas palavras de Bernardo Ferrão não correspondia à verdade.
  A tragédia de Pedrogão não é um filme de Clinton Eastwood para fazer disto uma bandalheira com o assunto. Não estreia na sexta. Existem vítimas. Os que perderam a vida, as famílias, os amigos e todos aqueles que sobreviveram mas perderam tudo. Não pode ser tratado como o recreio do colégio privado do PSD, nem a praceta de jornalistas que estão dispostos a tudo para atacar o atual governo.
   Enquanto o PSD e a Comunicação social, num ato desesperado de atacar o Governo, extrapola o bom senso, a ética e a moral, nós, os simplórios anônimos, com e sem cartão de militante, exigimos que se respeitem as vitimas de uma vez por todas. Até a pouca vergonha tem limites, e neste momento já foram superados. 




Jorge Miguel Pires

terça-feira, 25 de julho de 2017

Os Truques e a Imprensa

 Recentemente o sub-diretor do jornal Publico, Diogo Queiroz Andrade, publicou na sua conta pessoal nas redes sociais, em tom apoteótico de gozo, uma imagem e critica a dos criadores da página "Truques da Imprensa portuguesa". Ao bom estilo anarco-saloio (com todo o respeito pelos saloios) o ar descontraído da publicação contrastava com os ataques pessoais, profissionais e associações políticas feitas durante o anonimato dos criadores da página, altura em que a imprensa descontente dizia-se aprisionada numa espécie de escrutínio que a ERC deveria fazer. 
   Inicialmente os Truques eram uma página que os jornalistas apontavam uma extinção rápida, que "não daria resultado, mais uma página nas redes sociais". O problema é que o crescimento da página foi se alargando. Poucos foram os críticos que tiveram o mesmo sucesso. Uma tentativa surgiu ainda com o aparecimento de uma contra-página "Truques do Truques da imprensa portuguesa" que pouco, ou nenhuma, adesão teve. Era fruto da realidade, a imprensa portuguesa que gozava de excessos tendenciosos e procuras insistentes do clickbite não aceita se supervisionada, criticada ou escrutinada. 
   O Expresso, utilizando uma expressão recente (sempre o Expresso), um dos mais visados pela página, começou por entender que o seu espaço de manobra da sua tendência estava a diminuir, os holofotes estavam virados para o jornalismo, e exigia mais escrutínio. As noticias de Filipe Costa e João Vieira sofriam criticas constantes e naturais, visavam relembrar a ambos a diferença entre uma opinião e uma noticia. A prática de algum jornalismo do Expresso era utilizar as noticias para disfarçar opiniões políticas. Foi o Expresso que iniciou a guerra contra os Truques. Os jornalistas do Expresso não admitem ser escrutinados, muito menos por uma página que usou por em causa as más práticas do jornalismo. 
   A página dos "Truques" tornou o mau jornalismo mais desconfortável. O escrutínio sobre a imprensa é uma situação que deveria ser natural, os consumidores de informação têm todo o direito em saber a realidade da informação e não informação adulterada sistematicamente par belo prazer das tendências políticas ou futebolísticas de cada redação. Em causa não está só a credibilidade jornalística, está o aparecimento de diversas páginas que se substituem aos órgãos de comunicação social começa a ter repercussões perigosas e um elevado numero de partilhas, assumindo assim a credibilidade que o jornalismo tem vindo a perder.  
  A página dos truques faz serviço publico, sem ser remunerada para esse efeito. O facto de se extinguir o anonimato dos criadores da página, e existir tamanha euforia por causa de tal acontecimento, torna ainda mais essencial a existência da pagina e demonstrando que a imprensa, apesar de nunca ter aprendido nada com a situação, não pode retornar aos velhos tempos do apoio político, dos simuladores de IRS ou das sucessivas tentativas de enterro do atual executivo, e não aconteça um esclarecimento óbvio sobre a noticia, ou até que ponto a noticia sofreu alteração para servirem interpretações diferentes. Pena o profundo erro de perceção jornalística que tudo pode voltar ao normal, se algo pode ser mérito dos "Truques" é a nova fase do leitor/telespectador, a exigência e o escrutínio maior sobre a informação.
  Independentemente dos Truques saírem do anonimato, certamente o excelente trabalho de supervisão do  nosso jornalismo continua. O trabalho dos Truques é essencial à democracia. É necessário  saber quais são os objetivos da comunicação social e destapar as tendências de cada redação. O jornalismo não se pode queixar de ditadura e lápis azul ou de garrote, afinal a informação deve ser acima de tudo isenta. 






Jorge Miguel Pires

sábado, 22 de julho de 2017

Apartheid ideológico



 Um momento de pouca tolerância eleva de imediato trincheiras para uma guerra de crenças e valores que cada lado tende a defender com as armas que possui. As barreiras criadas nas redes sociais levaram a uma nova de fazer valer as pretensões de cada um dos lados. Nesta clima não existe um meio termo. Ou estás com eles, ou estás contra eles.
  Os acontecimentos na esquadra de Alfragide atiçou as hostes. Ambos os lados afinam as armas para defender teorias do acontecimento. Uma investigação deu como certo que os seis jovens foram brutalmente agredidos pelos agentes da esquadra. Mesmo que não fosse a totalidade dos agentes, aqueles que assitiram e nada fizeram deveriam ter intervido, assegurando em nome da justiça a defesa dos direitos das vítimas e acima de tudo da instituição que sai manchada deste caso. Ao contrário, limitram-se a cruzar os braços perante tamanha brutalidade.
  A inspeção teve como base para a conclusão do inquérito depoimentos e provas que foram surgindo. O INEM (chamado para socorrer as vítimas) foi fulcral para chegar a uma conclusão mais forte. Conseguiu perceber que os depoimentos da polícia não faziam sentido. Seis jovens desarmados invadem uma esquadra da policia? Magoam-se na esquadra ao ponto de apresentar mazelas visiveis? Nitida demonstração de bastante violência? Não me parece que tenha sido difícil a Inspeção chegar a um veredito. 
  Este caso vem em altura que outro caso surg, quinze jovens agredem três agentes da PSP durante as festas no Catujal. Quinze jovens que incendiaram a índole tanto racista, como intolerante. 
  Duas situações tão próximas no tempo só poderiam terminar num ponto, a ascensão dos odios e desculpadas dos dois lados. Ambas as trincheiras extremaram posições, de tal forma que qualquer comentário ou publicação, termina com uma guerra verbal desproporcional e com troca de palavras acesas. Aos mais serenos a procura da ofensa acaba sempre por ser o caminho mais fácil.
  A existência de violência policial não é de hoje, é conhecida de longos anos, e até bastante aceitável por parte da sociedade. As longas pancadas de cassetete da polícia de intervenção são aplaudidas com frequência, o adepto do Benfica que foi agredido foi de agrado de alguns adeptos adversários e é costume se dizer "bem feita, o animal merecia" , quando alguém está a ser espancado. Por outro lado, alguns dos jovens com historial de desacatos vivem um clima de impunidade, o suficiente para enfrentar a polícia sem qualquer problema. 
   Esta situação merece maior serenidade. A aposta no extremismo não é a via mais razoável para serenar o assunto. O racismo existe, e não é residual. A forma como ambos os assuntos foram abordados nas redes sociais foi um verdadeiro barómetro do nível de racismo existente no país. 
   Por outro lado uma procura insistente de racismo leva a um resultado inverso no seu combate. Nas redes sociais uma intervenção fiscal da CP, prática perfeitamente normal por parte da empresa, foi aproveitada por alguém para tornar o caso em racismo sem qualquer base de prova. Ausência de agressões, mais utentes há espera de serem autuados, tudo normal numa fiscalização. No entanto quem captou a fotografia tinha claras intenções de se aproveitar da situação para gerar indignação no politicamente correcto. Este tipo de situações desvirtua totalmente a luta contra o racismo, atira sim, mais gasolina para um tema que arde sempre que vem ao de cima.
  Não se pode, em momento algum, desculpar a violência policial desproporcional. Também não se pode atacar a instituição num todo desvalorizando o trabalho dos seus agentes, pessoas capacitadas para o trabalho de proximidade e a real função da autoridade. Por outro lado não se pode apontar o dedo aos bairros sociais com afirmações sem nexo, e dar um pelo todo, nem podemos aceitar que seja só os afro-descendentes os causadores de toda a criminalidade juvenil.
Muito trabalho pela frente.







Jorge Miguel Pires

sexta-feira, 21 de julho de 2017

O aquecimento global e o quebra-cabeças dos nenúfares



 Não sei se o leitor se lembra do quebra-cabeças dos nenúfares: «num lago existem uns nenúfares que duplicam a área que ocupam em cada dia que passa, ao fim de 30 dias ocupam toda a área do lago. Quantos dias demoram os nenúfares a ocupar metade da área?».
  A resposta (29 dias) é muito fácil, mas não é intuitiva: a nossa intuição linear tende a dizer-nos «15 dias», mas devemos rejeitá-la. 
O problema da intuição linear é que ao fim de 15 dias menos de 0,01% da superfície do lago está ocupada, e portanto parece um completo absurdo dizer que dentro de outros 15 dias não sobrará nada. 

   O fenómeno do aquecimento global tem semelhanças: há fenómenos de realimentação positiva que levam a que o ritmo de alteração dependa do nível de alteração - quanto mais a temperatura sobe, mais rápido tende a subir. Os danos criados pelo aquecimento também não são lineares uma subida média de 2º não é duas vezes mais danosa que uma subida média de 1º - é muito pior. 

  Fazendo a analogia entre o aquecimento global e os nenúfares, os primeiros 15 dias já passaram há algum tempo. Foram aquelas décadas entre 1950 e 1990: começou-se a estudar o assunto, e a comunidade científica na sua generalidade concluiu que a actividade humana estava a causar efeito de estufa e que isso era muito perigoso. Mas a oposição científica à ideia ainda era séria, porque os dados não eram completamente inequívocos (o nenúfar ainda ia a menos de 0,01%, não era tão fácil estudar a sua dinâmica de crescimento). 

  Os dez dias seguintes foram os anos entre 1990 e 2015. As provas do Aquecimento Global tornaram-se muito mais fortes e inequívocas, e o debate científico ficou fundamentalmente resolvido. O nenúfar já vai a mais de 3%, já não há dúvida de que está a crescer exponencialmente. 

  Agora estamos nos cinco dias finais. Os recordes de temperatura sucedem-se cada vez mais rápido. O polo norte derrete cada vez mais depressa, e os efeitos nefastos do aquecimento global surgem cada vez com mais frequência: a notícia mais recente é que podemos ter de suspender o consumo de sardinhas. É isso: podemos ficar 15 anos sem sardinhas por causa do aquecimento global, se é que não as vamos perder para sempre. As sardinhas!
Mas o nenúfar ainda vai a cerca de 3%, e agora é que a "festa" está a começar. Amanhã estará a 6%, depois de amanhã a 12%, e a seguir a 25%. 

Temos de perceber que a prioridade no combate ao aquecimento global não é para salvar as sardinhas ou diminuir a frequência de incêndios. Estas questões são quase insignificantes a comparar com o que pode vir aí. O aquecimento global pode provocar um dano económico e humano muito superior ao da segunda guerra mundial, quiçá uma ordem de grandeza superior. 

E este é o momento certo para reagir. A Europa precisa de um programa de estímulo para a procura agregada: que tal um plano massivo de reconversão energética? É possível aumentar o emprego e os salários enquanto acautelamos o futuro, e quanto mais cedo reagirmos, menos intensos terão de ser os nossos esforços e sacrifícios, e menos gente morrerá em vão.
De que é que estamos à espera?

Post também publicado no Esquerda Republicana.








João Vasco Gama